
No Tocantins, o artesanato é mais do que expressão cultural: é fonte de renda, memória coletiva e alternativa econômica para milhares de famílias. No Dia do Artesão, celebrado em 19 de março, a atividade ganha visibilidade não apenas pelo seu valor simbólico, mas também pelo impacto financeiro que vem acumulando nos últimos anos.
Entre 2023 e 2025, artesãos do estado participaram de feiras nacionais e movimentaram aproximadamente R$ 2,2 milhões em negócios, considerando vendas diretas e encomendas. Os números revelam o potencial do setor, que aos poucos amplia sua presença em mercados fora do estado e conquista novos públicos.
Atualmente, mais de 3 mil profissionais estão cadastrados em sistemas oficiais, o que garante acesso a políticas públicas e oportunidades comerciais. Ainda assim, a realidade de muitos trabalhadores é marcada por instabilidade e dependência de eventos e feiras para garantir renda.
Tradição que gera sustento
Em diferentes regiões do estado, o artesanato traduz modos de vida e relações com o território. No Jalapão, o capim-dourado é transformado em bolsas, biojoias e utensílios, sendo um dos principais símbolos da produção local. A técnica, transmitida há gerações, tem origem em comunidades quilombolas e combina conhecimento tradicional com inovação.
No extremo norte, a cadeia do babaçu sustenta a produção de peças decorativas e utilitárias, enquanto o buriti oferece matéria-prima versátil para diferentes tipos de artesanato. Já em Natividade, a delicada técnica da filigrana mantém viva uma herança do período colonial, com joias produzidas a partir de fios finos de ouro.
Em municípios como Porto Nacional, o trabalho com madeira também se destaca. Artesãos produzem móveis e objetos a partir de recursos do Cerrado, muitas vezes em processos que envolvem toda a família e atravessam gerações.
Conhecimento que resiste ao tempo
A transmissão de saberes é uma das bases do artesanato tocantinense. Em muitas comunidades, o aprendizado acontece dentro de casa, com pais e avós ensinando técnicas aos mais jovens. No entanto, esse ciclo enfrenta desafios, como o desinteresse de novas gerações e a busca por outras fontes de renda.
Outro obstáculo é a preservação da memória. Por serem feitas de materiais naturais e, muitas vezes, frágeis, as peças não resistem ao tempo. Isso torna essencial o registro das histórias e dos processos de produção, garantindo que o conhecimento não desapareça.
Iniciativas de documentação audiovisual têm contribuído para esse processo, registrando trajetórias de mestres artesãos e valorizando o patrimônio imaterial do estado.
Cultura, identidade e economia
Entre povos indígenas e comunidades quilombolas, o artesanato ocupa um papel ainda mais amplo. Mais do que atividade econômica, ele está ligado à identidade, à espiritualidade e à organização social.
Povos como Karajá, Xerente e Krahô mantêm tradições que incluem cerâmica, cestaria e produção de adornos. As bonecas Ritxoko, por exemplo, são reconhecidas como patrimônio cultural brasileiro e representam cenas do cotidiano e elementos da natureza, funcionando como instrumento de transmissão de conhecimento.
Esse conjunto de práticas reforça o papel do artesanato como parte da economia criativa, setor que vem ganhando espaço no Brasil por valorizar produtos com identidade cultural e produção sustentável.
Entre avanços e desafios
Apesar do crescimento, o setor ainda enfrenta limitações. O acesso a mercados continua sendo um dos principais entraves, especialmente para artesãos que vivem em regiões mais isoladas. A dependência de políticas públicas e de eventos específicos também evidencia a necessidade de maior estruturação da cadeia produtiva.
Por outro lado, o aumento do interesse por produtos artesanais e sustentáveis abre novas possibilidades. O reconhecimento cultural e a valorização do feito à mão têm impulsionado o artesanato para além das fronteiras regionais.
No Tocantins, o desafio é equilibrar tradição e inovação. Enquanto preserva saberes ancestrais, o setor busca se adaptar às novas dinâmicas de mercado para garantir renda, visibilidade e continuidade a uma atividade que traduz, em cada peça, a identidade de um povo.
Reportagem: Patrícia Alves / Combinado Notícias










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